sábado, 25 de fevereiro de 2017

AS DIMENSÕES DO AMOR E DO RESPEITO


“QUASE SEMPRE INCAPAZ DE AMAR AO PRÓXIMO, O HOMEM PODE, AO MENOS, RESPEITÁ-LO”

Quando compreendemos, respeitamos, e se respeitamos, amamos!

"Amai-vos, uns aos outros. Amai aos vossos inimigos, orai pelos que vos perseguem e caluniam”!
No contexto maior de que faz parte, o conhecido mandamento não se acha assim no imperativo da classificação gramatical, mas no subjuntivo, como uma exortação, uma suplica: "Que vos ameis uns aos outros”. Na verdade, é um pedido manso de quem sabe da dificuldade em ser atendido.
Ciente da dificuldade, mas ansioso por atender ao Mestre e exemplificar aos fiéis, Agostinho implora a Deus que lhe dê o amor que deve dar: "Dai-me o que me ordenais, e ordenai-me o que quiserdes" (Agostinho, Confissões). Este imperativo, como se sabe, define a ação que se leva a efeito com vistas a um retor¬no: "Se fizeres isto, terás aquilo."

Realmente, o homem se norteia, antes de tudo, pela lei do “do ut dês” (dou para que me dês).
Também pragmático Pedro via no amor a causa eficiente da libertação do que mais atormenta ao espírito cristão, que anseia o céu: "O amor cobre a multidão de pecados." "Cobre" ficou, talvez, por "anula", porque se apenas os "cobrisse", ficariam eles subjacentes nos recônditos da mente, de onde continuaria a cutilar o pobre pecador.
Da intensidade cósmica do amor também fala João: "Deus é amor." Solta do seu contexto, a frase parece um axioma, uma definição metafísica não sujeita a demonstração, e leva à suposição de que o santo faz do amor o próprio Deus: "Amor é Deus".
"Amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus, e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor”. Quer dizer: Deus é amoroso; quando amamos O conhecemos, porque nos fazemos semelhantes a Ele.
Aliás, costuma-se dividir o amor em "sagrado" e "profano", ou "divino" e "humano". O amor de João, de Pedro, de Agostinho, extensões do amor do Cristo, seria o amor sagrado, tanto quanto o de Francisco de Assis a estigmatizar-se em Alverne, e o de Teresa de Ávila a comburir-se em êxtases.

A FACE NEGATIVA DO AMOR
SÓ PODEMOS CONHECER A FACE NEGATIVA DO AMOR, PRECISAMENTE PORQUE É A NOSSA FACE!
Qual seria a face ou natureza negativa do amor?
É quando temos o percebimento de que "não somos amorosos".
Não devo dizer a mim mesmo: "Eu tenho de ser bom". O de que preciso é perceber que "não sou bom" e me pegar no meu desamor, que é inicio do amor.
Isso através de um percebimento dinâmico, sumamente interessado, em que não há condenação. Quando me apercebo de que não sou bom, de que não amo, nem por isso me condeno, dizendo de mim que sou mesquinho, um verme, um ser desprezível, abjeto.
O percebimento é dinâmico, mas passivo. Não posso mudá-lo, é impossível transformar a maldade em bondade, o desamor em amor. Quando conheço profundamente a maldade, ela começa por se enfraquecer, perde o império sobre mim, cessa inteiramente à sua ação, e este cessar é a bondade. Quanto preguiçoso se pega em sua preguiça ele tem tudo para mudar. Assim o ambicioso na sua ambição. o mentiroso na sua mentira. Só temos o positivo quando damos conta em nós do que é negativo.
O amor efloresce quando murcha o desamor.
Não posso chegar a alguém; dizer-lhe: "Ama-me!". Querer amar, forçar o amor, cultivar o amor, são contrassensos. O amor direcionado, objetivado, não é amor, tem, inclusive, outros nomes: desejo, apego, ciúme. O amor não visa resultados, é intransitivo, basta-se a si mesmo; é uma espontaneidade, uma expansão em si mesma, não se sujeita à vontade ou volição, não admite compulsões, simplesmente ama.
Gramaticalmente, admite-semas, o imperativo: "ama!", "amai!"; não se o admite afetivamente; pelo coração. Não basta querer o amor, forçar o amor.
Não conheço o amor pela sua vontade do querer. O amor não é matemática que se soma, se multiplica, Mas se por mim me interesso contenciosamente, descubro a vacuidade do meu coração, a aridez de minha alma, a ausência do amor em mim. E ao perceber esta ausência, ele aparece
Não posso, que não sei como ele é, não lhe posso idear formas ou substâncias para amor, dada a sua imaterialidade. O cultivo do amor, dito "sagrado", tanto quanto o do amor dito "profano", não leva ao amor em si.
O simples ato de qualificar o amor já lhe anula a essência: quem qualifica é o pensamento, e o amor não pode ser pensado, o intelecto não alcança o amor.
Quando cogito de objetivos, resultados, o amor não floresce. No cultivo do amor sagrado busco a Deus, ou o que penso seja Deus; no cultivo do amor profano busco satisfação sexual, sensual, a satisfação dos sentidos: amor à mulher, ao homem, aos prazeres generalizados que as coisas sensíveis oferecem.
O cultivo do amor é um mero forçar, desejo ainda no âmbito da incompreensão do desamor. Não se cultiva o amor, dá-se amor!
Quando surpreendo este – o desamor - em mim, desespero e lhe quero o oposto, sofro pro não amor, me desgosto, porque ensinaram-me, ou eu julgo que o amor seja o oposto do desamor, e não o é porque o amor não tem seu contrario. Basta a si mesmo.
Realmente, dele não se pode ter nenhuma ideia: a ideia é sempre uma concretização, uma materialização, um buscar que não se satisfaz. O amor não é concreto, material; é preciso que o concreto e material se desfaçam para que ele tenha lugar. O amor não pressupõe espaço e tempo, é atemporal e inespacial.
Deus! Acaso existe, assim esse amor?
Assim... abstrato, inconsútil, evanescente! Como poderei saber dele?
Quando penso que o tenho, já não o tenho mais. Ele não prende com as mãos, não se prende a minhas ansiedades. Que o digam os sempre ansiosos pela santidade do amor, que lhes parece o grau máximo do chamado amor "sagrado", e mais não é que desejo de poder.

O AMOR EXISTE!
Pode-se compreender isso, com naturalidade?
A compreensão é um ato de amor, de funda contensão do espírito. Não é possível forçar a compreensão de ninguém ao dizer-lhe: "Compreenda-me!" Ama-me! Eu é que compreendo!
A compreensão nasce da inteligência, nem "nasce": a compreensão "é" inteligência. Se o outro não a tem atilada, esclarecida, jamais me compreenderá. Qualquer forçamento pelo amor é simples estupidez. Estupidez do que força, e do que intenta compreender pelo esforço. O esforço intelectual não pode levar à compreensão, à bondade, ao amor, porque o intelecto é a própria incompreensão, não está na dimensão do amor, porque desama, interessado no prazer e na fuga da dor, nas coisas do seu interesse imediato. O intelecto nunca é contencioso, não é compassivo, não tem paixão-com.
O forçar soluções, em qualquer sentido, é desamor!
Ainda que às vezes tenha a aparência de amor"
O cultivo da aparência do amor que em geral conhecemos: o se caracteriza por uma atuação constante sobre os objetos do nosso amor, das nossas posses, do meu filho, da minha mulher, do meu carro; tudo isso que configura o"eu", o homem e a sua posição no mundo.
Isto parece muito claro: ninguém pode se esforçar para a conquista do que não conhece; se me posso esforçar, e para compreender o que me falta - sem culpas, sem punição, sem julgamentos e muito menos justificativas. Observo-me naquilo que sou, o que forma o meu interior a massa em que me consubstancio. Então compreendo e nessa compreensão nasce a compaixão.
Se não posso saber logicamente, discursivamente, intelectualmente que sou amoroso, como poderei saber que sou desamoroso?
Poderei sabê-lo pelos efeitos, visivelmente danosos, do desamor.
Poderei então saber que sou amoroso pelos efeitos visivelmente benéficos do amor?
O desamor sempre visa a resultados. Dos efeitos ruinosos dele eu posso saber, e em conseqüência perceber que sou desamoroso na sumidade da compreensão do desamor, já sou amoroso.

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