“QUASE SEMPRE
INCAPAZ DE AMAR AO PRÓXIMO, O HOMEM PODE, AO MENOS, RESPEITÁ-LO”
Quando compreendemos, respeitamos, e se respeitamos, amamos!
"Amai-vos,
uns aos outros. Amai aos vossos inimigos, orai pelos que vos perseguem e
caluniam”!
No contexto
maior de que faz parte, o conhecido mandamento não se acha assim no imperativo
da classificação gramatical, mas no subjuntivo, como uma exortação, uma
suplica: "Que vos ameis uns aos outros”. Na verdade, é um pedido manso de
quem sabe da dificuldade em ser atendido.
Ciente da
dificuldade, mas ansioso por atender ao Mestre e exemplificar aos fiéis,
Agostinho implora a Deus que lhe dê o amor que deve dar: "Dai-me o que me
ordenais, e ordenai-me o que quiserdes" (Agostinho, Confissões). Este
imperativo, como se sabe, define a ação que se leva a efeito com vistas a um
retor¬no: "Se fizeres isto, terás aquilo."
Realmente, o
homem se norteia, antes de tudo, pela lei do “do ut dês” (dou para que me
dês).
Também pragmático Pedro via no amor a causa eficiente da libertação do que mais atormenta ao espírito cristão, que anseia o céu: "O amor cobre a multidão de pecados." "Cobre" ficou, talvez, por "anula", porque se apenas os "cobrisse", ficariam eles subjacentes nos recônditos da mente, de onde continuaria a cutilar o pobre pecador.
Também pragmático Pedro via no amor a causa eficiente da libertação do que mais atormenta ao espírito cristão, que anseia o céu: "O amor cobre a multidão de pecados." "Cobre" ficou, talvez, por "anula", porque se apenas os "cobrisse", ficariam eles subjacentes nos recônditos da mente, de onde continuaria a cutilar o pobre pecador.
Da intensidade
cósmica do amor também fala João: "Deus é amor." Solta do seu
contexto, a frase parece um axioma, uma definição metafísica não sujeita a
demonstração, e leva à suposição de que o santo faz do amor o próprio Deus:
"Amor é Deus".
"Amemo-nos
uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido
de Deus, e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é
amor”. Quer dizer: Deus é amoroso; quando amamos O conhecemos, porque nos
fazemos semelhantes a Ele.
Aliás,
costuma-se dividir o amor em "sagrado" e "profano", ou
"divino" e "humano". O amor de João, de Pedro, de
Agostinho, extensões do amor do Cristo, seria o amor sagrado, tanto quanto o de
Francisco de Assis a estigmatizar-se em Alverne, e o de Teresa de Ávila a
comburir-se em êxtases.
A FACE NEGATIVA
DO AMOR
SÓ PODEMOS
CONHECER A FACE NEGATIVA DO AMOR, PRECISAMENTE PORQUE É A NOSSA FACE!
Qual seria a
face ou natureza negativa do amor?
É quando temos o percebimento de que "não somos amorosos".
É quando temos o percebimento de que "não somos amorosos".
Não devo dizer
a mim mesmo: "Eu tenho de ser bom". O de que preciso é perceber que
"não sou bom" e me pegar no meu desamor, que é inicio do amor.
Isso através de
um percebimento dinâmico, sumamente interessado, em que não há condenação.
Quando me apercebo de que não sou bom, de que não amo, nem por isso me condeno,
dizendo de mim que sou mesquinho, um verme, um ser desprezível, abjeto.
O percebimento
é dinâmico, mas passivo. Não posso mudá-lo, é impossível transformar a maldade
em bondade, o desamor em amor. Quando conheço profundamente a maldade, ela
começa por se enfraquecer, perde o império sobre mim, cessa inteiramente à sua
ação, e este cessar é a bondade. Quanto preguiçoso se pega em sua preguiça ele
tem tudo para mudar. Assim o ambicioso na sua ambição. o mentiroso na sua
mentira. Só temos o positivo quando damos conta em nós do que é negativo.
O amor
efloresce quando murcha o desamor.
Não posso
chegar a alguém; dizer-lhe: "Ama-me!". Querer amar, forçar o amor,
cultivar o amor, são contrassensos. O amor direcionado, objetivado, não é amor,
tem, inclusive, outros nomes: desejo, apego, ciúme. O amor não visa resultados,
é intransitivo, basta-se a si mesmo; é uma espontaneidade, uma expansão em si
mesma, não se sujeita à vontade ou volição, não admite compulsões, simplesmente
ama.
Gramaticalmente,
admite-semas, o imperativo: "ama!", "amai!"; não se o
admite afetivamente; pelo coração. Não basta querer o amor, forçar o amor.
Não conheço o
amor pela sua vontade do querer. O amor não é matemática que se soma, se
multiplica, Mas se por mim me interesso contenciosamente, descubro a vacuidade
do meu coração, a aridez de minha alma, a ausência do amor em mim. E ao
perceber esta ausência, ele aparece
Não posso, que
não sei como ele é, não lhe posso idear formas ou substâncias para amor, dada a
sua imaterialidade. O cultivo do amor, dito "sagrado", tanto quanto o
do amor dito "profano", não leva ao amor em si.
O simples ato
de qualificar o amor já lhe anula a essência: quem qualifica é o pensamento, e
o amor não pode ser pensado, o intelecto não alcança o amor.
Quando cogito
de objetivos, resultados, o amor não floresce. No cultivo do amor sagrado busco
a Deus, ou o que penso seja Deus; no cultivo do amor profano busco satisfação
sexual, sensual, a satisfação dos sentidos: amor à mulher, ao homem, aos
prazeres generalizados que as coisas sensíveis oferecem.
O cultivo do
amor é um mero forçar, desejo ainda no âmbito da incompreensão do desamor. Não
se cultiva o amor, dá-se amor!
Quando
surpreendo este – o desamor - em mim, desespero e lhe quero o oposto, sofro pro
não amor, me desgosto, porque ensinaram-me, ou eu julgo que o amor seja o
oposto do desamor, e não o é porque o amor não tem seu contrario. Basta a si
mesmo.
Realmente, dele
não se pode ter nenhuma ideia: a ideia é sempre uma concretização, uma
materialização, um buscar que não se satisfaz. O amor não é concreto, material;
é preciso que o concreto e material se desfaçam para que ele tenha lugar. O
amor não pressupõe espaço e tempo, é atemporal e inespacial.
Deus! Acaso
existe, assim esse amor?
Assim... abstrato, inconsútil, evanescente! Como poderei saber dele?
Assim... abstrato, inconsútil, evanescente! Como poderei saber dele?
Quando penso
que o tenho, já não o tenho mais. Ele não prende com as mãos, não se prende a
minhas ansiedades. Que o digam os sempre ansiosos pela santidade do amor, que
lhes parece o grau máximo do chamado amor "sagrado", e mais não é que
desejo de poder.
O AMOR EXISTE!
Pode-se
compreender isso, com naturalidade?
A compreensão é um ato de amor, de funda contensão do espírito. Não é possível forçar a compreensão de ninguém ao dizer-lhe: "Compreenda-me!" Ama-me! Eu é que compreendo!
A compreensão é um ato de amor, de funda contensão do espírito. Não é possível forçar a compreensão de ninguém ao dizer-lhe: "Compreenda-me!" Ama-me! Eu é que compreendo!
A compreensão
nasce da inteligência, nem "nasce": a compreensão "é"
inteligência. Se o outro não a tem atilada, esclarecida, jamais me
compreenderá. Qualquer forçamento pelo amor é simples estupidez. Estupidez do
que força, e do que intenta compreender pelo esforço. O esforço intelectual não
pode levar à compreensão, à bondade, ao amor, porque o intelecto é a própria
incompreensão, não está na dimensão do amor, porque desama, interessado no
prazer e na fuga da dor, nas coisas do seu interesse imediato. O intelecto
nunca é contencioso, não é compassivo, não tem paixão-com.
O forçar
soluções, em qualquer sentido, é desamor!
Ainda que às vezes tenha a aparência de amor"
O cultivo da aparência do amor que em geral conhecemos: o se caracteriza por uma atuação constante sobre os objetos do nosso amor, das nossas posses, do meu filho, da minha mulher, do meu carro; tudo isso que configura o"eu", o homem e a sua posição no mundo.
Ainda que às vezes tenha a aparência de amor"
O cultivo da aparência do amor que em geral conhecemos: o se caracteriza por uma atuação constante sobre os objetos do nosso amor, das nossas posses, do meu filho, da minha mulher, do meu carro; tudo isso que configura o"eu", o homem e a sua posição no mundo.
Isto parece
muito claro: ninguém pode se esforçar para a conquista do que não conhece; se
me posso esforçar, e para compreender o que me falta - sem culpas, sem punição,
sem julgamentos e muito menos justificativas. Observo-me naquilo que sou, o que
forma o meu interior a massa em que me consubstancio. Então compreendo e nessa
compreensão nasce a compaixão.
Se não posso
saber logicamente, discursivamente, intelectualmente que sou amoroso, como
poderei saber que sou desamoroso?
Poderei sabê-lo
pelos efeitos, visivelmente danosos, do desamor.
Poderei então
saber que sou amoroso pelos efeitos visivelmente benéficos do amor?
O desamor
sempre visa a resultados. Dos efeitos ruinosos dele eu posso saber, e em
conseqüência perceber que sou desamoroso na sumidade da compreensão do desamor,
já sou amoroso.
Dos efeitos benéficos
do amor não devo saber, pois que se eu perceber que sou amoroso, não o sou. O
amor não visa a resultados. Se quero saber dos seus efeitos benéficos, os
arruíno e já são eles o desamor. O desamor não é o oposto do amor, mas a
compreensão deste. Na ampla compreensão do desamor, o amor existe.

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